Mediunidade com Kardec
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- 05. A mediunidade foi criada pelo Espiritismo?
A oficialização do Espiritismo como doutrina sistematizada se deu em 18 de abril de 1857, com o lançamento da primeira edição de O Livro dos Espíritos . Essa obra marcou o início de um novo campo de estudo, fundamentado na observação dos fenômenos espirituais e na análise racional das leis que regem a relação entre o mundo material e o mundo espiritual. A mediunidade foi criada pelo Espiritismo? Dando continuidade à sua pesquisa, Kardec ampliou o seu olhar sobre os fenômenos mediúnicos, analisando-os sempre com seriedade e método científico. O resultado desse trabalho criterioso foi a publicação, em 1861, de O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores , a obra mais completa no que diz respeito à mediunidade . A importância dessa obra é tamanha que muitos — equivocadamente — chegam a supor que a mediunidade teria surgido somente com o advento do Espiritismo. Entretanto, no capítulo XXXI de O Livro dos Médiuns , Kardec afirma que o dom da mediunidade é tão antigo quanto o mundo. Os profetas eram médiuns. Os mistérios de Elêusis se fundavam na mediunidade. Os Caldeus, os Assírios tinham médiuns. Sócrates era dirigido por um Espírito que lhe inspirava os admiráveis princípios da sua filosofia; ele lhe ouvia a voz. Todos os povos tiveram seus médiuns e as inspirações de Joana d’Arc não eram mais do que vozes de Espíritos benfazejos que a dirigiam. Complementando essa linha de raciocínio, o autor espiritual Manoel Philomeno de Miranda — em Mediunidade: Desafios e Bênçãos , pela psicografia de Divaldo Franco — reitera que, na raiz de quase todos os acontecimentos históricos encontramos a inspiração das mentes desencarnadas interferindo nos comportamentos humanos de maneira eficiente e vigorosa. MEDIUNIDADE NA BÍBLIA A história da humanidade apresenta inúmeros relatos de manifestações espirituais. Desde os tempos mais antigos, a presença dos Espíritos se revela em diferentes momentos da experiência humana, ainda que interpretada, em cada época, segundo a cultura e as crenças vigentes. A heroína silenciosa, Yvonne do Amaral Pereira, menciona — ao longo de suas obras — que o livro Atos dos Apóstolos pode ser considerado o primeiro tratado sobre mediunidade no qual temos registro. Nele, encontram-se diversas ocorrências mediúnicas vividas pelos seguidores de Jesus após o Pentecostes. A Bíblia, de maneira geral, quando analisada sob a ótica espírita, revela uma rica variedade de ocorrências mediúnicas. Dentre elas, podemos mencionar: A mão misteriosa que apareceu e escreveu durante o banquete do rei Baltazar (Daniel 5:5-31). A consulta do rei Saul ao espírito do profeta Samuel, feita por meio da pitonisa de En-Dor (1 Samuel 28:7-19). O anúncio do nascimento de Jesus, quando Maria recebeu a visita do anjo Gabriel (Lucas 1:26-38). A transfiguração de Jesus diante dos apóstolos Pedro, Tiago e João — todos os doze apóstolos eram médiuns —, além da materialização de Moisés e Elias. (Mateus 17:1-8) A libertação de Pedro da prisão, onde um anjo interveio para auxiliá-lo (Atos 12:7-11). A conversão de Saulo (que se tornaria Paulo) no caminho de Damasco, após a aparição de Jesus. (Atos 9:1-19) As visões proféticas do apóstolo João sobre o Apocalipse na ilha de Patmos (Apocalipse 1:1-20). É justo apontarmos que, até mesmo nas biografias oficiais dos chamados santos , publicadas e reconhecidas pela própria Igreja Católica, há registros de fenômenos que, segundo a interpretação espírita, podem ser considerados manifestações mediúnicas. Destacam-se, em particular: Santa Luzia (?–304) Apresentava mediunidade de vidência (relatava visões espirituais, como a de Santa Ágata), de cura (realizava curas com auxílio dos Espíritos) e de efeitos físicos (permaneceu ilesa ao fogo e, após ter os olhos arrancados, segundo relatos, surgiram novos olhos em seu rosto). Santa Brígida (1303–1373) Manifestava mediunidade de vidência e audiência (via e ouvia Espíritos com frequência), psicofonia (transmitia mensagens espirituais com sua própria voz), psicografia (registrava comunicações por escrito) e xenoglossia (relatava mensagens em idiomas que não conhecia). Suas experiências foram reunidas na obra O Livro das Revelações . Declarava abertamente, mesmo diante das autoridades do clero da sua época, que era porta-voz dos Espíritos. Santa Teresa D’Ávila (1515–1582) Exibia mediunidade de vidência e audiência (dizia ver os Espíritos com os olhos da alma , mesmo de olhos fechados). Relatava contatos espirituais com Frei Pedro de Alcântara, Santo Antônio de Pádua, São Francisco de Assis e Jesus Cristo. Fatos semelhantes estão presentes, igualmente, nas histórias de vida de diversas personalidades religiosas, como Santo Antônio de Pádua (1195–1231), Santa Joana d’Arc (1412–1431), São Francisco de Assis (1181–1226), São Vicente de Paulo (1581–1660), Santa Clara (1194–1253), São Pedro de Alcântara (1499–1562), Santa Margarida Maria Alacoque (1647–1690), Santa Teresa de Ávila (1515–1582), Dom Bosco (1815–1888), Teresa Neumann (1898–1962) e Santa Teresinha do Menino Jesus (1873–1897). O fenômeno mediúnico, portanto, não foi criado pelo Espiritismo. Nova é tão somente a forma como percebemos e conhecemos como essas faculdades se manifestam. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 2: Mediunidade Sem Medo Pergunta 05: A mediunidade foi criada pelo Espiritismo? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS KARDEC , Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. FEB; 93ª edição. Rio de Janeiro, 2014. KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns (cap. XXXI). Tradução de Salvador Gentile. 9ª edição. Editora Boa Nova, 2004. FRANCO , Divaldo (psicografia). Mediunidade: Desafios e Bênçãos. Manoel Philomeno de Miranda (espírito). Editora LEAL, 2019. BÍBLIA DE JERUSALÉM . 14ª impressão. Editora PAULUS, 2017.
- 04. O que é mediunidade?
Enquanto o médium é a pessoa que apreende pelos sentidos a influência dos Espíritos com clareza, frequência e intensidade — servindo de intermediário entre duas dimensões distintas —, a mediunidade é a faculdade, a ferramenta ou o mecanismo sensorial que permite esse intercâmbio em graus variados de sensibilidade. A mediunidade é, na maioria das vezes, prova ou tarefa de responsabilidade reencarnatória. Essa aptidão não constitui um privilégio, dom, castigo, tampouco sinal de superioridade evolutiva. Trata-se de uma capacidade orgânica e espiritual, presente de forma embrionária em todos, mas ostensiva apenas em alguns. ( vide questão 03 ). Além disso, representa uma oportunidade educativa que, muitas vezes, pode estar ligada a compromissos espirituais assumidos antes da reencarnação. OBJETIVOS E FINALIDADES DA MEDIUNIDADE Fundamentados em O Livro dos Médiuns , de Allan Kardec, e Espíritos e Médiuns , de Léon Denis, delineamos a seguir os principais objetivos e finalidades da mediunidade. Comprovação da imortalidade da alma; Intercâmbio entre o mundo espiritual e o mundo material; Canal de socorro e consolo a encarnados e desencarnados; Oportunidade de evolução pessoal para o médium; Transmissão das leis divinas e conhecimentos espirituais; Esclarecimento dos fenômenos; Contribuição para a regeneração moral da humanidade. Em suma, a mediunidade tem como finalidade principal o crescimento moral, intelectual e espiritual do ser humano . Ela existe para auxiliar na evolução do médium e de todos aqueles que são beneficiados pelo intercâmbio entre os dois planos da vida. Tendo como princípio a educação da alma, a mediunidade — sob a ótica espírita — é uma ferramenta de auxílio mútuo, beneficiando tanto o Espírito que se comunica, quanto aqueles que recebem a mensagem, e também o próprio médium que serviu de instrumento em sua veiculação. MEDIUNIDADE COM JESUS Mediunidade com Jesus é a expressão pela qual os Espíritos superiores designam o exercício mediúnico guiado pelos princípios do Cristo, especialmente aqueles expressos no Evangelho: humildade, caridade, disciplina, responsabilidade e amor ao próximo. Essa prática transcende o mero contato com o mundo espiritual, alçando a faculdade mediúnica a um patamar de serviço, caridade e transformação moral. Ela atua na transformação do médium para que este possa, por sua vez, influenciar positivamente o ambiente em que se insere. Constitui, assim, um trabalho realizado com consciência e coração, em plena sintonia com os princípios do Cristo. Os fundamentos que caracterizam a Mediunidade com Jesus incluem: Baseada nos princípios do Evangelho e da moral cristã; Caridade desinteressada ; Serviço abnegado ao próximo; Gratuidade absoluta (proibição de qualquer cobrança ou remuneração) ; Conduta íntegra e ética em todas as suas ações; Humildade genuína ( isenção de vaidade, orgulho, personalismo ); Exercício mediúnico sem ostentação (discrição e sobriedade); Ausência de busca por reconhecimento, aplausos ou destaque pessoal ; Disciplina e estudo contínuos da doutrina; Sintonia vibratória com o bem (elevação moral e do pensamento); Voltada ao bem coletivo e à elevação espiritual da humanidade. MEDIUNIDADE ESPÍRITA x OUTRAS DENOMINAÇÕES RELIGIOSAS A mediunidade é um fenômeno universal, presente em todas as culturas, épocas, religiões e classes sociais, acompanhando o ser humano desde seus primeiros passos sobre a Terra. No entanto, foi Allan Kardec quem lhe conferiu um tratamento metódico, racional e moralmente orientado, estabelecendo as bases do que denominamos mediunidade espírita . É fundamental sublinhar que a mediunidade praticada pela Doutrina Espírita, conforme as diretrizes de Kardec, não possui nenhuma relação com episódios de adivinhações, amarrações amorosas, desmanche de casamentos, cobranças de quaisquer espécies de valores (favores, trocas, compensações), rituais, oferendas, imolação de animais ou trabalhos que visem ao consulente obter ganhos financeiros, heranças, etc. Ao compartilharmos os princípios que norteiam a prática mediúnica sob a orientação de Allan Kardec — alicerçada nos ensinamentos do Evangelho de Jesus —, nosso intuito é oferecer uma referência clara para aqueles que se identificam com o Espiritismo em sua vertente kardecista. ( vide questão 44 ). Reconhecemos e respeitamos que outras tradições religiosas também fazem uso da mediunidade, com compreensões e métodos distintos. Esta reflexão, portanto, dirige-se especialmente aos trabalhadores da seara espírita que buscam aprofundar sua prática mediúnica com base nos fundamentos codificados por Kardec. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 2: Mediunidade Sem Medo Pergunta 04: O que é mediunidade? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile. 9ª edição. Editora Boa Nova, 2004. DENIS , Léon. Espíritos e Médiuns. Tradução de José Jorge. Edições CELD – Centro Espírita Léon Denis. 3ª edição. Rio de Janeiro, março de 2001.
- 03. O que é médium? Todos somos médiuns?
A palavra médium vem do latim medium , que significa meio, centro ou intermediário . Originalmente, esse termo era usado para indicar tudo aquilo que se encontra entre dois polos ou realidades, algo que estabelece a ligação ou faz a mediação entre partes distintas. Como saber se sou médium segundo o Espiritismo? No entanto, o uso da palavra médium para designar uma pessoa capaz de intermediar a comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material é relativamente recente. Esse emprego começou a se consolidar apenas a partir do século XIX, com o surgimento dos primeiros estudos sistemáticos sobre os chamados fenômenos espirituais. Antes disso, diversas culturas já conheciam e experienciavam manifestações atribuídas a Espíritos, mas sem utilizar esse vocabulário técnico. Foi no contexto do espiritualismo moderno — especialmente na Europa e nos Estados Unidos — que o termo medium (na forma inglesa) passou a ser usado com mais frequência para identificar pessoas que serviam como canal para mensagens do além. Essa acepção se difundiu por influência direta do movimento espiritualista e, de modo indireto, pelas ideias do pensador sueco Emanuel Swedenborg (1688–1772), que, embora não tenha utilizado esse termo, ajudou a consolidar as bases do pensamento espiritualista europeu. No Espiritismo, codificado por Allan Kardec em meados do século XIX, o termo médium passou a adquirir um significado mais específico: designa a pessoa que atua como ponte entre dois planos ou dimensões distintas. Em termos práticos, trata-se daquele que, de forma sensível e consciente, serve de intermediário na ação dos Espíritos, permitindo manifestações perceptíveis — como psicografias, incorporação, vidência e audiência mediúnica, toques — entre outras formas de interação. (Referências: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa; Trésor de la langue française informatisé – TLF) SEGUNDO KARDEC, O QUE É MÉDIUM? Allan Kardec, no capítulo XIV de O Livro dos Médiuns afirma que todo aquele que sente , num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium . Para entender corretamente essa frase, é fundamental refletir sobre o significado do verbo sentir nesse contexto. Para isso, vamos recorrer ao texto original em francês, a fim de compreendermos com mais precisão o que Kardec realmente quis transmitir. NO ORIGINAL FRANCÊS No original francês de Le Livre des Médiums , Kardec escreveu: — Toute personne qui ressent , à un degré quelconque, l’influence des Esprits est, par cela même, médium. O verbo em destaque é ressentir . No francês, ressentir não é um simples equivalente do nosso sentir , trata-se de um verbo mais forte e específico. Segundo o Dicionário Larousse — uma das obras de referência mais tradicionais e respeitadas da lexicografia francesa —, o termo significa: — Experimentar uma sensação física ou emocional de forma intensa. Ou seja, não estamos falando de uma impressão vaga ou de uma percepção sutil. O verbo ressentir envolve uma experiência perceptível, intensa e concreta, que pode ser física, emocional ou mental, mas sempre com forte impacto sobre quem a vivencia. TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS Na tradução mais conhecida para o português de O Livro dos Médiuns — realizada pela FEB, com base nos trabalhos de Guillon Ribeiro e outros colaboradores —, o verbo francês ressentir foi convertido em sentir . Essa escolha ampliou consideravelmente o campo de significados da frase original. Essa pequena mudança pode parecer sutil, mas altera significativamente o alcance da ideia, como veremos a seguir. Segundo o Dicionário Houaiss , o verbo sentir pode significar: — Perceber por meio dos sentidos (ex.: sentir calor); — Experimentar emoção (ex.: sentir saudade); — Intuir (ex.: sentir que algo está errado). Esse leque de significados torna o termo mais ambíguo e menos preciso do que o uso original feito por Kardec. RESSENTIR x SENTIR: UMA DIFERENÇA QUE MUDA TUDO Um ponto que merece atenção na leitura da frase de Kardec é o uso do verbo francês ressent , traduzido para o português como sentir . À primeira vista, essa equivalência parece aceitável, já que os dois verbos compartilham campos semânticos muito próximos. No entanto, uma leitura mais atenta — tanto do original francês quanto das implicações doutrinárias da frase — revela que essa tradução pode diluir o significado original pretendido por Kardec, merecendo, portanto, uma análise mais precisa. Em francês, os verbos sentir e ressentir são, de fato, semelhantes. Ambos indicam que algo é percebido pelos sentidos ou pela sensibilidade psíquica. No entanto, há entre eles uma diferença importante: Sentir , tanto em francês quanto em português, pode se referir a qualquer tipo de percepção, desde uma sensação física leve até uma intuição vaga, sendo um termo neutro quanto à intensidade. Trata-se de uma palavra ampla e genérica. Ressentir , por sua vez, carrega a ideia de experimentar algo de forma mais intensa, consciente, interna e emocionalmente significativa. Não se trata apenas de perceber algo de passagem, mas de ser afetado de maneira clara e perceptível. É justamente essa distinção que justifica a escolha do verbo ressentir por parte de Kardec. Ele não está dizendo que qualquer pessoa que pressinta algo indefinido seja, por isso, médium. O termo ressentir indica que a influência espiritual é reconhecida pela pessoa de maneira concreta, sensível e direta, ainda que em graus diferentes. A tradução clássica da obra, ao adaptar ressentir simplesmente como sentir , acaba atenuando essa nuance fundamental. Isso ajuda a explicar por que muitos leitores passam a interpretar — erroneamente — que qualquer pessoa que tenha uma leve intuição, um pressentimento ou uma impressão vaga já pode ser considerada médium. Essa observação não visa desqualificar a tradução existente, mas destacar os limites inevitáveis da equivalência linguística entre línguas diferentes, especialmente quando se trata de termos com valor técnico e doutrinário. O tradutor, ao optar por sentir , certamente se baseou na similaridade geral dos verbos, mas essa escolha — embora compreensível — pode induzir o leitor a uma interpretação menos precisa. INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS Com isso, chegamos a uma distinção essencial: todos sofremos influência espiritual, mas nem todos somos médiuns. Em O Livro dos Espíritos , questão 459, Kardec confirma essa influência ao perguntar: Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? — Muito mais do que imaginais; influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem. Portanto, embora todos sejamos influenciados pelos Espíritos, isso não significa que todos sejamos capazes de perceber conscientemente essa influência, tampouco de servir como canal para manifestações evidentes. E é aí que entra o verdadeiro sentido da mediunidade. INFLUÊNCIA ≠ MEDIUNIDADE Para que possamos apreender esta ideia com maior lucidez, proponhamos um paralelo simples. Consideremos o sinal de Wi-Fi que se propaga invisível no ambiente ao nosso redor. Ele se encontra em toda parte, acessível, tal qual em uma vasta atmosfera de ondas. Contudo, somente o aparelho receptor, dotado da tecnologia e da configuração adequadas, é capaz de captar essas vibrações e as traduzir em uma conexão útil à internet. Assim é que, embora as ondas estejam ali, manifestando-se à nossa volta, sua percepção e utilidade dependem essencialmente da capacidade de quem as recebe. Na mediunidade, o princípio é semelhante. Todos estamos imersos no campo espiritual, como se estivéssemos cercados por uma imensa rede de sinais invisíveis. Mas, assim como apenas alguns aparelhos são capazes de captar e traduzir esses sinais, apenas alguns indivíduos conseguem perceber essas influências com nitidez e manifestá-las por meio de fenômenos como a psicografia, psicofonia, visões, entre outras medianimidades. RAROS SÃO OS QUE NÃO POSSUEM RUDIMENTOS Retornando ao Livro dos Médiuns , Kardec aprofunda seu raciocínio ao destacar: Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Ao falar em rudimentos, Kardec não está dizendo que todos possuem mediunidade ostensiva. Ele se refere a sinais muito iniciais e pouco desenvolvidos da sensibilidade espiritual, como certa intuição, impressão ou uma percepção vaga. Esses indícios ainda não caracterizam a mediunidade propriamente dita, mas indicam que essa faculdade existe de forma potencial em todo ser humano. Para facilitar a compreensão, podemos pensar na mediunidade como um talento musical. Quase todas as pessoas são capazes de perceber ritmo, repetir uma melodia simples ou identificar uma nota musical. Esses são rudimentos musicais, que não tornam alguém um músico profissional, mas indicam que a estrutura básica está presente. Da mesma forma, a maioria das pessoas possui rudimentos mediúnicos — intuições e percepções, pressentimentos, sensações inexplicáveis —, mas só se considera médium, na acepção kardequiana do termo, aquele que manifesta a faculdade de forma clara, contínua e com efeitos evidentes. Essa diferenciação ajuda a evitar equívocos comuns. Sentir alguma coisa não torna a pessoa, automaticamente, um médium. MEDIUNIDADE OSTENSIVA x MÉDIUM OSTENSIVO Mediunidade ostensiva se refere à mediunidade ativa, clara e bem desenvolvida. É quando a pessoa não apenas percebe a influência espiritual, mas também serve de canal para manifestações contínuas e verificáveis. Essa expressão é válida para descrever a faculdade mediúnica quando esta se apresenta de forma clara e evidente. O termo médium ostensivo , por sua vez, embora seja comum na linguagem popular, é dispensável do ponto de vista doutrinário. Isso porque, conforme a definição de Kardec, o próprio conceito de médium já implica uma mediunidade manifesta e evidente. Ou seja, chamar alguém de médium ostensivo seria o mesmo que dizer médico que exerce a medicina ou outra expressão similar. No entanto, o uso dessa expressão se difundiu especialmente para fins pedagógicos, com o objetivo de destacar a diferença entre aqueles que possuem a mediunidade claramente desenvolvida — segundo a definição do codificador — e aqueles que apenas apresentam sensibilidades ou influências espirituais mais sutis, como os sensitivos. Em contextos de estudo e divulgação, essa expressão passou a ser empregada para facilitar a compreensão do grau de desenvolvimento da faculdade mediúnica, ainda que, na prática, não seja necessária. Por isso, seu uso deve ser entendido como recurso explicativo, e não como uma categoria doutrinária estabelecida por Kardec. SOMOS TODOS MÉDIUNS? Kardec comenta, na Revista Espírita (fevereiro de 1859): O vocábulo [médium] tem uma acepção mais restrita, e geralmente se diz médium às pessoas dotadas de um poder mediatriz muito grande... Ou seja, embora todos tenhamos alguma sensibilidade espiritual, o nome médium deve ser reservado àqueles cuja faculdade é clara e operante. No capítulo XIV de O Livro dos Médiuns , Kardec ressalta: Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Mas ele imediatamente completa: Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. Esse todavia seguido de vírgula tem o papel de uma conjunção adversativa. Ou seja, a segunda parte da frase restringe e qualifica a generalização feita na primeira. Em princípio, todos somos sensíveis ao mundo espiritual. Mas, conforme o uso que Kardec faz do termo, médium é aquele que reconhece com clareza e regularidade a presença e a ação dos Espíritos. Isso mostra que, embora todos possam apresentar sinais de sensibilidade espiritual, não se pode afirmar, à luz da definição kardecista, que todos sejam médiuns. SENSITIVO É O MESMO QUE MÉDIUM? Em Segurança Mediúnica, o Espírito Miramez — por meio da psicografia de João Nunes Maia — nos ensina que a mediunidade é um estado natural da criatura, um dom, um fruto maduro. O sensitivo, por sua vez, é um fruto verde a caminho da maturidade. É por isso que nem todo sensitivo é, de fato, um médium. O sensitivo capta impressões espirituais de forma vaga, intuitiva ou emocional, mas ainda não manifesta uma comunicação nítida e recorrente com o plano espiritual. Trata-se de um estágio inicial. AINDA SOMOS TODOS MÉDIUNS? No Espiritismo, a palavra médium não é um título espiritual, nem um rótulo genérico para pessoas sensíveis ou intuitivas. Trata-se de um termo com valor específico. Diante das considerações aqui apresentadas, a definição de médium que mais se aproxima do pensamento do codificador seria a seguinte: Médium é aquele que percebe, de forma física e consciente (que apreende pelos sentidos, com clareza, frequência e intensidade), em algum grau, a influência dos Espíritos. Allan Kardec, ao afirmar que todo aquele que sente a influência dos Espíritos é médium, não quis dizer que todos o são no mesmo grau ou com a mesma clareza. Sua intenção foi mostrar que a sensibilidade espiritual é uma faculdade natural do ser humano, ainda que, na maioria das pessoas, essa influência ocorra de forma sutil, difusa ou mal interpretada. Por isso mesmo, ele esclarece, nos parágrafos seguintes, que o uso comum da palavra médium deve ser reservado àqueles cuja faculdade mediúnica se manifesta de maneira nítida, constante e reconhecível. Essa distinção entre sensibilidade mediúnica (presente em todos) e mediunidade ostensiva (presente em alguns) é fundamental para evitar confusões conceituais. Muitas vezes, experiências como uma intuição repentina, um arrepio inexplicável ou um pressentimento isolado são interpretadas como mediunidade, quando, na verdade, fazem parte das influências espirituais a que todos estamos sujeitos em diferentes graus , sem que isso, por si só, configure a presença da faculdade mediúnica propriamente dita. Esclarecer essa distinção não apenas enriquece o entendimento sobre a mediunidade, como também protege o estudo espírita de interpretações apressadas, ajudando cada pessoa a se situar com mais responsabilidade diante dessa faculdade. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 2: Mediunidade Sem Medo Pergunta 03: O que é médium? Todos somos médiuns? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DICIONÁRIO HOUAISS da Língua Portuguesa. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001. TRÉSOR DE LA LANGUE FRANÇAISE – TLF. Medium . CNRS/ATILF – Analyse et traitement informatique de la langue française. KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns, ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores: Espiritismo experimental. Tradução de Guillon Ribeiro (a partir da 49ª edição francesa). Brasília: Federação Espírita Brasileira, 81ª edição, 2020. KARDEC , Allan. Le Livre des Médiums, ou Guide des Médiums et des Évocateurs. 11e édition. Paris: Didier, 1869. LAROUSSE , Éditions. Dictionnaire de français Larousse. 1ª edição eletrônica. Paris: Larousse, 2024. KARDEC , Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. FEB; 93ª edição. Rio de Janeiro, 2014. KARDEC , Allan. Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – fevereiro de 1859. Tradução de Julio Abreu Filho. Edicel Editora; 4ª edição, março de 2020. MAIA , João Nunes (psicografia). Segurança Mediúnica. Miramez (espírito). Fonte Viva, 2ª edição, março de 2015. GUIMARÃES , Anete. Mediunidade: Mitos e Verdades. Seminário realizado na Associação Espírita A Caminho da Luz (AELUZ), São José do Rio Preto, SP, 23 de abril de 2016.
- 02. Por que fundamentamos nossos estudos em Kardec?
Kardec é um prisma, uma bússola, um guia seguro para todos que buscam estudar a mediunidade e o intercâmbio com o mundo espiritual. Por que devemos iniciar nossos estudos de educação mediúnica através das obras de Kardec? Além das questões fenomênicas relacionadas ao mediunismo, Kardec deixou um legado incomparável, fruto de 12 anos contínuos de dedicação e pesquisa. Esse esforço resultou na codificação da Doutrina Espírita, apresentada em 23 obras. Ao longo de seus escritos, especialmente em O Livro dos Médiuns , Kardec trouxe à superfície o mais completo e seguro guia sobre mediunidade. Com isso, não estamos afirmando que Kardec deva ser a única referência para o médium ou qualquer outro adepto do espiritismo/espiritualismo. Como recomendação, sem qualquer pretensão, sempre incentivamos a leitura de diversas obras, sejam elas espíritas ou não. No entanto, cabe ao leitor exercer seu senso crítico e discernimento, assimilando de cada leitura apenas aquilo que for bom e elevado. Nos tempos atuais, em que as informações são disseminadas de forma massiva, é fundamental termos uma base sólida e confiável para distinguir entre o que é real e o que é fantasioso. Desse modo, todo aquele que tem como referência as obras de Allan Kardec está sempre em boa companhia. PESQUISAS Nas pesquisas para este livro, por exemplo, nos deparamos com diversas páginas na internet oferecendo informações e comentários sobre o tema consultado, sem, no entanto, apresentarem nenhuma referência. Isso quando o conteúdo de um link não era simplesmente copiado e colado repetidamente em outros meios, propagando assim uma informação duvidosa e sem confiabilidade. Sem contar as páginas que, embora citassem as referências dos livros consultados, apresentavam fontes distorcidas ou diferentes do texto original. Ou seja, é sempre importante verificar as referências ao navegar pela internet ou qualquer outro meio de informação. Em inúmeros sites que abordam a temática espiritual, o senso comum prevalece. Em outras palavras, as informações são baseadas unicamente em experiências pessoais, sem fundamentos ou bases teóricas racionais. No entanto, o mais alarmante são as páginas com milhares de seguidores, cujos responsáveis não têm preparo adequado ou, possivelmente, estão sob a influência de um processo de fascinação. MÉDIUNS YOUTUBERS Em casos mais gritantes, deparamo-nos com alguns médiuns youtubers (com milhares de inscritos) afirmando-se detentores de informações privilegiadas por parte dos Espíritos superiores . Em outro momento, encontramos uma médium — que se diz espírita — oferecendo seus "serviços" de psicografia. Ela garante que, em pouco tempo, o cliente receberá uma carta psicografada de seu ente querido, acompanhada de um áudio do texto. Para isso, basta pagar uma quantia modesta e aguardar até 15 dias. Também observamos um canal, cujo médium interesseiro, de maneira equivocada, afirma aos seus 2,4 milhões de seguidores que o medianeiro é um trabalhador comum, podendo lucrar com os livros "psicografados" por seu intermédio, além de cobrar por consultas e trabalhos específicos utilizando-se da sua "mediunidade" . ( vide questão 54 ) TERAPEUTAS QUÂNTICOS Dentro das casas espíritas, observa-se, atualmente, uma crescente divulgação de ideias relacionadas à física quântica, frequentemente propagadas por palestrantes e trabalhadores espiritistas que se apresentam como terapeutas quânticos . No entanto, esses divulgadores, em muitas situações, não compreendem completamente os termos técnicos que utilizam e, em boa parte dos casos, não possuem formação acadêmica específica na área, como licenciatura ou bacharelado em Física. De modo similar, mesmo sem qualquer formação em medicina ou nutrição, essas pessoas oferecem, como parte de seus "serviços", promessas de curas rápidas por meio de reprogramação celular , emagrecimento sem grandes esforços, divórcios energéticos para a desvinculação espiritual do antigo cônjuge e um cronograma infalível para alcançar a iluminação espiritual , entre outras práticas que carecem de comprovação científica ou médica. Em rápida análise, fica evidente que essas terapias têm como único objetivo o enriquecimento e a prosperidade financeira, especialmente para aqueles que as promovem. Para essas pessoas, a espiritualidade se transforma em um comércio altamente lucrativo , o que é completamente incompatível com os ensinamentos de Jesus e Kardec. Nas redes sociais, muitos desses falsos profetas compartilham fotos e legendas com conteúdos edificantes, retirados de obras sérias e respeitáveis, o que lhes permite atrair um grande número de seguidores. No entanto, eles acabam utilizando essa audiência para promover e vender, entre uma postagem e outra, seus serviços terapêuticos. CURA GAY ATRAVÉS DO PASSE ESPÍRITA No entanto, o mais chocante foi ler uma obra de um renomado autor espírita — com mais de 80 títulos publicados — que discorre sobre a cura do homossexualismo (termo utilizado pelo próprio autor) por meio da terapia dos passes e da fé sincera. O autor afirma ter presenciado, ao longo dos anos, a cura de vários homossexuais através do passe espírita. Em uma dissertação mais efervescente — para não dizer fanática —, o autor afirma que, durante o regime nazista, Adolf Hitler e seus ministros eram homossexuais e tinham como plano a expansão do homossexualismo (termo repetido por ele) por toda a Europa. Além disso, na mesma obra, encontramos menções às religiões de matriz africana, que, segundo o ponto de vista equivocado do autor, seriam primitivas e inferiores. ALTERAÇÕES E ADULTERAÇÕES NAS OBRAS DE KARDEC Dentre as diversas traduções dos livros de Kardec para a língua portuguesa, encontraremos — naturalmente — algumas diferenças entre uma e outra, sem que isso altere a essência das obras. No entanto, há alguns casos bastante preocupantes nos quais o tradutor, revisor ou editor, por sua conta e risco, alterou nomes e conceitos das obras da codificação. Como exemplo, citamos O Livro dos Médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores (nome completo dessa obra), que teve seu título alterado propositalmente — por um autor e tradutor espírita — para O Livro dos Médiuns ou guia dos médiuns e dos doutrinadores . De acordo com o responsável, atualmente, não há mais necessidade de se evocar os Espíritos. Por ironia do destino, ou não, ainda podemos ver na capa deste livro uma inscrição que diz "versão inalterada do original". Nesse mesmo sentido, compreende-se também uma versão adulterada pela Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) de O Evangelho Segundo o Espiritismo , que circulou na década de 1970, vendendo cerca de 30 mil exemplares (retirados de circulação após um longo processo judicial). Essas não foram as primeiras, nem as últimas vezes, que alguém tentou "atualizar" as obras do codificador, trazendo suas visões de mundo e seus conceitos modernos, como se Kardec estivesse ultrapassado. Essas atitudes, além de desrespeitarem a memória do autor, desvirtuam o conteúdo original das obras e podem levar os leitores a interpretarem de forma equivocada os ensinamentos de Kardec. Alterações e adulterações em obras espíritas não se restringiram aos títulos de Allan Kardec. No Brasil, mais de 110 obras de um único médium amplamente reconhecido foram constatadas com modificações em relação às suas versões originais ao longo dos anos. Essas alterações iam além de simples ajustes ortográficos e, em muitos casos, passaram despercebidas pelo público. A identificação dessas modificações e a consequente contestação vieram de dentro do próprio movimento espírita, por meio da mobilização de grupos, uniões e federações, que se empenharam em corrigir as distorções e restaurar os textos às suas versões originais. Com as alterações identificadas (chegando a 40 modificações em um dos livros), as instituições espíritas que constataram essas mudanças procuraram a editora responsável pelas publicações, com o objetivo de iniciar um diálogo construtivo sobre as diferenças observadas. Apesar da apresentação de evidências concretas, a editora insistiu que não havia ocorrido qualquer alteração. Diante da negativa persistente e do silêncio da detentora dos direitos autorais dessas obras, as partes recorreram ao Judiciário. Esse processo culminou em um acordo que assegurou a restauração gradual dos textos, devolvendo-os às suas versões originais. FÉ RACIOCINADA Mesmo que um autor se declare espírita, seu conteúdo não está automaticamente livre de falhas ou tendenciosidades. Seus textos e vídeos, por mais respeitados ou influentes que sejam , devem ser lidos e assistidos com espírito crítico e discernimento, pois podem conter informações incorretas, interpretações parciais e, naturalmente, expressar as visões pessoais do autor/médium, que não necessariamente refletem o pensamento espírita como um todo. Enfim, apresentamos apenas uma pequena parte desses casos, para que nossos leitores compreendam a gravidade dessas armadilhas. KARDEC É A BASE: Obras de Kardec X Romances Mediúnicos Há também aqueles que se declararam espíritas, mas nunca estudaram as obras de Allan Kardec, preferindo, quase que exclusivamente, os romances mediúnicos (psicografados). Sobre este tópico, a respeitável médium Yvonne do Amaral Pereira, em À luz do Consolador , destaca que não devemos nem poderemos limitar nossa instrução doutrinária aos livros mediúnicos tão somente. Estes são, com efeito, importantes, indispensáveis a nossa cultura doutrinária, encantadores, e podemos mesmo afirmar que o Espiritismo é produto da mediunidade nos seus diferentes graus. Entretanto, continua Yvonne, numa obra mediúnica seria impossível ao autor recapitular todo o precioso acervo de observações, de análises, de experiências, etc., que as obras dos grandes mestres colaboradores de Allan Kardec apresentaram. Segundo a autora, para apreciarmos o valor e a beleza de uma obra mediúnica, principalmente romances, teremos de conhecer as obras básicas a fim de sabermos analisar a perícia da arte literária de além-túmulo, que apresenta os mais variados e belos aspectos doutrinários, devendo ser sempre calcados sobre os princípios inabaláveis erigidos por Allan Kardec e seus continuadores. Não cairemos – conclui a autora – no perigo do sofisma e das opiniões particulares se conhecermos o Espiritismo através dos livros básicos dos seus grandes escritores, porque aí aprenderemos a observar, raciocinar e analisar com eles. A autora nos lembra que, antes de se aventurar na leitura de um romance espírita mediúnico, é essencial que a pessoa conheça as obras de Kardec. A recomendação de Yvonne Pereira visa estabelecer parâmetros seguros para que o estudo espírita seja realizado com discernimento. Portanto, quem se dedica ao estudo das obras de Kardec adquire uma base sólida, que é fundamental para discernir entre o que é edificante e o que é místico, além de distinguir o que é fantasia do que é realidade. A adoção de uma postura crítica, aliada à fé raciocinada proposta por Kardec, permite ao iniciado no espiritismo examinar qualquer conteúdo que lhe seja apresentado (inclusive este livro), sem tomá-lo como uma verdade absoluta ou inquestionável. FILTRANDO INFORMAÇÕES O problema não está no excesso de informações que recebemos, mas na forma como as filtramos. Sem os devidos filtros morais, éticos, racionais e intelectuais que Kardec e a espiritualidade superior nos ensinaram, aceitamos facilmente tudo o que nos é apresentado. Isso, inevitavelmente, nos leva a reproduzir e perpetuar conceitos equivocados, como a homofobia, o racismo, o sexismo, a ganância, entre outros. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 1: Kardec é um prisma Pergunta 02: Por que fundamentamos nossos estudos em Kardec? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PEREIRA , Yvonne do Amaral. À luz do Consolador. FEB Editora, 2014.
- 01. Quem é Allan Kardec?
Certamente, qualquer pessoa que tenha buscado informações sobre a doutrina espírita já deve ter lido ou ouvido falar de Allan Kardec. Mas, afinal, quem foi Allan Kardec? Quem é Allan Kardec? Allan Kardec é o pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em 3 de outubro de 1804, em Lyon, França. Com seu nome de batismo, Rivail destacou-se na área educacional, sendo um renomado pedagogo — discípulo de Pestalozzi e divulgador do Método Pestalozziano —, além de escritor e tradutor de diversos idiomas. No entanto, foi somente na década de 1850 que o pseudônimo Allan Kardec passou a fazer parte de sua vida, período em que começou a estudar e observar os fenômenos das mesas girantes, traçando as primeiras linhas que dariam origem à codificação do Espiritismo. Como educador, Hippolyte Léon Denizard Rivail fundou dois institutos educacionais e escreveu diversas obras didáticas, sempre mostrando-se à frente de seu tempo, com um trabalho de inestimável grandeza. Membro de várias sociedades científicas, Rivail possuía um caráter questionador e cético. O filho de Lyon era um homem íntegro, o que o tornou uma figura respeitada em toda a sociedade intelectual francesa. MESAS-GIRANTES Já em meados de 1855, por meio de um amigo, o Sr. Fortier — pesquisador do magnetismo —, Rivail ouviu falar pela primeira vez sobre o fenômeno das mesas girantes. A imprensa da época narra amplamente que, por toda a França, em salões, residências e até mesmo em apresentações teatrais, mesas levitavam, giravam e se moviam apenas com a imposição das mãos ou dos dedos dos participantes. Após a insistência de seu ilustre amigo, o cético Rivail permitiu-se observar tais episódios, inicialmente na casa da senhora Roger, depois na residência de madame Plainemaison e, por fim, no lar da família Baudin. Após presenciar, diversas vezes, que as mesas respondiam por meio de pancadas — ou outros movimentos — às perguntas que lhes eram direcionadas, Rivail passou a investigar a origem da inteligência por trás dessas respostas. Acreditando, a princípio, que tais movimentos eram causados unicamente pelo magnetismo ou, talvez, de um mero truque ilusório (chegando a desvendar, mais tarde, a técnica usada por diversos falsários), Rivail concluiu que, por trás de todo efeito inteligente, há uma causa inteligente. Com o passar do tempo, as comunicações, que antes eram obtidas por meio das mesas girantes e das sucessivas pancadas que indicavam as letras do alfabeto — formando frases e sentenças muitas vezes extensas, tornando o processo demorado e incômodo —, foram adaptadas para uma nova modalidade. Essa nova técnica, conhecida como panier à bec — já popular entre diversos médiuns quando foi adotada por Rivail para fins de experimentação — consistia no uso de uma cesta de bico com um lápis preso ao centro. Colocada sobre um papel, a cesta passava a escrever sob o influxo das mãos impostas. Por fim, a chamada cesta escrevente deu lugar à psicografia que conhecemos hoje, na qual a própria mão do médium escreve sob o estímulo da entidade comunicante, sem a necessidade de qualquer outro utensílio além do lápis (ou caneta) e do papel. Nesse meio tempo, por meio da mediunidade das jovens irmãs Caroline e Julie Baudin, Rivail recebeu diversas mensagens espirituais, incluindo uma revelação do Espírito Zéfiro, guia espiritual da família Baudin, sobre uma de suas vidas passadas, na qual teria sido um druida chamado Allan Kardec. Foi também nesse período que ele tomou consciência do compromisso assumido — ainda no mundo espiritual — de pesquisar e divulgar a doutrina dos Espíritos. MÉTODO CIENTÍFICO Para que o professor Rivail pudesse observar, investigar e analisar todos esses fenômenos de forma criteriosa, sem se deixar envolver por empolgação, fantasia ou fanatismo, era necessário adotar um método científico sério, idôneo e sistemático. O método científico utilizado por Kardec foi o da universalidade das informações advindas dos Espíritos, conhecido como Controle Universal do Ensino dos Espíritos. De modo prático, o codificador comparava as mensagens de diferentes médiuns (residentes em localidades distintas) e Espíritos, buscando concordância em suas ideias e princípios. Além disso, submetia as mensagens à análise racional, descartando aquelas que contrariassem o bom senso, a lógica e os conhecimentos científicos da época. Somente após um controle rigoroso e sistemático Kardec incorporava tais mensagens e ensinamentos em suas obras. As ideias presentes na codificação eram frequentemente confrontadas com novas mensagens mediúnicas, a fim de confirmar ou refutar seu conteúdo. É válido lembrar que, naquela época — década de 1850 —, a comunicação era bastante dificultosa, sendo quase sempre realizada por cartas ou, quando muito, por telégrafo. Também é justo mencionar que os médiuns envolvidos nesse processo não mantinham contato ou relação de amizade entre si, preservando, dessa maneira, a pureza e a individualidade das respostas, sem interferência, sugestão, indução ou manipulação por parte dos envolvidos. Ao término dessa fase, Rivail lançou, em 18 de abril de 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos , concluindo que a inteligência por trás dos fenômenos das mesas falantes, dançantes ou girantes era, de fato, a dos Espíritos — isto é, as almas dos homens que outrora viveram sobre a Terra. ALLAN KARDEC Para diferenciar seu legado educacional, incluindo todas as obras assinadas com seu nome de nascimento, Rivail passou a adotar o pseudônimo de Allan Kardec em todas as obras que marcaram a codificação da doutrina dos Espíritos. O Espiritismo, ou a Doutrina dos Espíritos, recebeu esse nome porque foram os próprios Espíritos superiores, incluindo o Espírito da Verdade (Jesus Cristo), que o ajudaram nesse processo de observação e pesquisa, com o objetivo de trazer ao mundo o consolador prometido. OBRAS BÁSICAS Segundo o livro Catálogo Racional de Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita , especificamente no capítulo 1º — intitulado Obras Fundamentais da Doutrina Espírita —, Allan Kardec destaca que as obras básicas do Espiritismo são: O Livro dos Espíritos; O Livro dos Médiuns; O Evangelho Segundo o Espiritismo; O Céu e o Inferno; A Gênese; O Que é o Espiritismo; O Espiritismo na sua expressão mais simples; Resumo da lei dos fenômenos espíritas; Caráter da revelação espírita; Viagem espírita em 1862; Coleção Revista Espírita (a partir de 1858). Apesar de Kardec nunca ter limitado a cinco o número de obras consideradas básicas, no Brasil, esse termo ganhou popularidade ao se referir aos seguintes títulos: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). Em suma, as obras básicas do Espiritismo são todas aquelas que Allan Kardec codificou, ou seja, um total de 23 obras, e não apenas as cinco mencionadas anteriormente. De todo o seu legado como Allan Kardec, O Livro dos Médiuns é, sem dúvidas, o maior tratado sobre mediunidade existente até hoje. Ninguém, em toda a sua trajetória, conseguiu agregar tanto valor a uma única obra — sobre os médiuns e os fenômenos mediúnicos — como Kardec o fez. Portanto, Kardec é um prisma, um norte, uma bússola que devemos seguir ao estudar ou pesquisar sobre qualquer assunto relacionado à mediunidade. DESENCARNE Em 31 de março de 1869, Kardec retorna à pátria espiritual aos 64 anos de idade. Casado com Amélie Boudet, companheira de ideal espírita e grande educadora, Kardec deixou seu nome registrado na história como o codificador da Doutrina Espírita, o ser iluminado que trouxe ao mundo o consolador prometido. Foi o antigo druida que, de forma abnegada, pesquisou e registrou as leis mediúnicas — que até hoje continuam comprovando a imortalidade da alma e, de forma segura, colaborando com todos aqueles que desejam educar suas faculdades. Kardec foi o homem, o educador, o esposo, a alma de escol que, verdadeiramente, ajudou a mudar o rumo do nosso planeta. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 1: Kardec é um prisma Pergunta 01: Quem é Allan Kardec? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SAUSSE , Henri. Biografia de Allan Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1ª edição. FEB Editora, 2020. MAIOR , Marcel Souto. Kardec: a biografia. 5ª edição. Record, 2014. KARDEC , Allan. Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita. Tradução de Julia Vidili. São Paulo: Madras, 2014.
- 71. Qual o papel da reforma íntima na superação da obsessão sutil?
Manoel Philomeno de Miranda, na obra Mediunidade: Desafios e Bênçãos , psicografada por Divaldo Franco, nos alerta: Pequenos deslizes morais, desrespeito ao equilíbrio social e familiar, atentados ao dever, ao pudor e à ordem, dissimulações de indignidade pessoal, pecadinhos da sociedade, ebriedade, tabagismo, calúnia, inveja, todo o séquito pernicioso do ego famigerado, são atitudes delituosas que abrem brechas para as obsessões sutis . Reforma íntima e obsessão sutil: qual a relação entre elas segundo o Espiritismo? Conforme expõe a visão espírita, obsessão é a influência persistente de um espírito malévolo sobre um indivíduo. Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns (cap. XXIII), explica que ela pode se apresentar em diferentes graus, tais como a obsessão simples, a fascinação e a subjugação. Quando Philomeno de Miranda utiliza o termo obsessão sutil, ele se refere ao início desse processo. Trata-se de um estágio ainda discreto, em que, pela falta de vigilância e pelo descuido diante de pequenos deslizes cotidianos, o indivíduo dá ensejo à aproximação de Espíritos inferiores, que encontram sintonia em seu modo de pensar e agir . ( vide questão 62: O que os meus pensamentos revelam sobre as minhas companhias espirituais? ) Esses deslizes — chamados pelo autor de pecadinhos da sociedade — não são irrelevantes. Ao contrário, funcionam como portas de entrada para influências perniciosas, pois geram vibrações que atraem entidades afinadas com este tipo de conduta. Em termos simples, o desregramento do indivíduo funciona como um convite a Espíritos de natureza idêntica, isto é, que vibram nessa mesma frequência. Percebendo essa abertura, eles se aproximam e passam a influenciar sutilmente o pensamento, sugerindo ideias, emoções e comportamentos cada vez mais nocivos. Quando o encarnado, mesmo sem perceber, acolhe as sugestões do Espírito e passa a agir sob sua inspiração, um vínculo inicialmente sutil começa a se formar. Com o tempo, essa ligação se fortalece e se aprofunda, permitindo que a influência espiritual se intensifique gradualmente. À medida que esse laço se estreita, o processo obsessivo se instala com maior profundidade, tornando o desligamento entre obsessor e obsidiado uma tarefa cada vez mais difícil e dolorosa para ambos. Por já fazerem parte da rotina, esses hábitos negativos passam despercebidos, e o indivíduo vai se deixando envolver pelas companhias espirituais que atraiu, cedendo pouco a pouco às sugestões inferiores. Na maioria das vezes, a vítima não percebe a influência que a envolve. Quando algo incomum se apresenta, tende a interpretá-lo como simples ocorrência, sem maior significado. A este respeito, Manoel Philomeno, em sua obra destacada, nos previne ao dizer: As obsessões sutis devem ser combatidas desde as suas primeiras manifestações pelo paciente ainda lúcido , que se deve impor alteração da conduta para outra mais saudável, controle consciente do comportamento, recriando o clima mental e os hábitos corretos, propiciadores da saúde. COMO OCORRE A SINTONIA? A influência espiritual não se estabelece por imposição ou coerção externa, como se alguém fosse dominado sem escolha. Ela só é possível porque há afinidade vibratória entre obsessor e obsidiado. Isso se explica pela lei da sintonia, segundo a qual ninguém pode ser obsidiado se não oferecer, ainda que inconscientemente, campo de acesso . A sintonia espiritual pode ser comparada ao funcionamento de um rádio. Cada estação emite em uma frequência própria, e só ouvimos claramente a mensagem quando o aparelho está exatamente sintonizado nela. Da mesma forma, nossos pensamentos se manifestam como vibrações sutis que se espalham ao nosso redor. Aqueles que vibram na mesma frequência conseguem captar essas ondas, tornando-se receptores das ideias e sentimentos que compartilhamos. Assim, pensamentos de bondade e elevação atraem companhias afinadas com tais valores, enquanto pensamentos de desarmonia encontram eco em presenças igualmente perturbadas, que são atraídas, a semelhança de um imã, pela similitude vibratória entre os envolvidos. ( vide questão 56: Sintonia e Afinidade: Como os pensamentos atraem ou repelem certos Espíritos? ) O PAPEL DO OBSIDIADO A superação do quadro obsessivo inicia-se pelo esforço do próprio obsidiado. A partir do momento em que o paciente manifesta o desejo sincero de se recuperar e alcançar o equilíbrio, já se estabelece uma condição favorável à sua autorrecuperação. O primeiro passo em direção ao reequilíbrio é o reconhecimento da própria condição. Cabe ao obsidiado buscar o auxílio necessário no Centro Espírita que melhor atenda às suas necessidades. Para uma visão mais ampla sobre o tratamento indicado, sugerimos a leitura da questão 67: O que fazer em casos de obsessão? Entre o conjunto de práticas indicado pela Doutrina Espírita no processo de desobsessão, a reforma íntima ocupa um lugar de destaque. Bastante conhecida no meio espírita, essa prática é, acima de tudo, um compromisso pessoal e intransferível. Seu exercício requer constância, disciplina nos pensamentos, paciência diante das próprias imperfeições, perseverança no bem, domínio das más inclinações e firmeza moral para atravessar, sem esmorecer, as dificuldades naturais que surgem ao longo do caminho. Somado a esse movimento íntimo de renovação, o obsidiado em recuperação encontra grande auxílio ao agregar, em sua rotina, o trabalho no bem e as práticas de caridade. A isso se acrescentam recursos preciosos como a oração, o evangelho no lar, o passe, a água fluidificada e o estudo da doutrina espírita e da mediunidade, De modo complementar, o esclarecimento do Espírito obsessor é um mecanismo valioso no processo de desvinculação espiritual. Essa tarefa é realizada nas reuniões de desobsessão — conduzidas sem a presença do obsidiado — no ambiente da casa espírita onde ele buscou auxílio. Nesses encontros, trabalhadores encarnados, médiuns e dialogadores experientes, sob a inspiração e o amparo da equipe espiritual que os assiste, estabelecem um diálogo fraterno com o desencarnado, ajudando-o a compreender sua situação atual. Quando bem-sucedido, esse trabalho favorece o rompimento dos laços de dor que os unem, permitindo o início de um processo de libertação para ambos. As reuniões de desobsessão, de caráter reservado, fazem parte dos subsídios espirituais colocados à disposição daquele que, ao reconhecer a necessidade de mudança, busca auxílio e se dispõe a cooperar com o próprio processo de recuperação. A presença ativa da vontade, ainda que inicial, torna possível a ação conjunta da equipe espiritual e dos trabalhadores encarnados no atendimento ao Espírito comunicante, favorecendo a ruptura progressiva do vínculo obsessivo e a reorganização das condições morais de ambos os envolvidos. A IMPORTÂNCIA DA REFORMA ÍNTIMA Na experiência cotidiana dos atendimentos realizados nas instituições espíritas, observa-se que grande parte dos casos de obsessão tem origem em existências passadas; outros, porém, surgem na vida atual, resultando da afinidade e sintonia entre os envolvidos, como já foi explicado. Independentemente da origem, os obsessores agem com notável astúcia. Diante de suas vítimas, observam atentamente seus hábitos, gostos e fraquezas. Com paciência e frieza, identificam os pontos vulneráveis da personalidade, bem como as suas más tendências, inclinações inferiores e vícios morais. A partir daí, sugerem pensamentos prejudiciais, alimentam paixões inferiores e, lentamente, levam a vítima ao desequilíbrio. Para alcançar seus objetivos, os obsessores recorrem a estratégias variadas, muitas vezes influenciando pessoas próximas ao obsidiado, indivíduos com quem ele mantém vínculos afetivos, mas que, por fragilidade moral ou invigilância, tornam-se instrumentos involuntários de perturbação. Por meio dessas influências, surgem convites, sugestões e situações que estimulam a repetição de vícios, a retomada de hábitos prejudiciais e a entrega a comportamentos que comprometem seu equilíbrio. Considerando tais efeitos, torna-se indispensável refletir sobre as atitudes capazes de restituir a harmonia íntima. Conforme esclarece Manoel Philomeno de Miranda, na obra já mencionada, a superação desse quadro não se dá por soluções externas ou imediatas. Além da reforma íntima, destaca-se a prática da caridade como meio essencial. A caridade — amor em ação — constitui o esforço mais elevado que o ser humano pode empreender na busca da própria libertação, porque o aproxima intimamente de Jesus, o Cristo de Deus. É dessa sintonia com o Mestre que brotam a coragem e a força necessárias para superar as provas e os obstáculos do caminho. É importante lembrar, contudo, que a responsabilidade pela desvinculação espiritual é individual e não pode ser delegada. Médiuns, familiares e amigos podem auxiliar, seja por meio de passes, preces ou reuniões de desobsessão, mas a transformação verdadeira depende do próprio obsidiado. Cabe a ele modificar sua conduta, ajustar sua vida social e moral, e empenhar-se, de livre vontade, para sair do abismo em que se deixou cair. Só assim poderá recuperar a sua harmonia e saúde integral (espiritual, física e mental). Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 7: Obsessões Pergunta 71: Qual o papel da reforma íntima na superação da obsessão sutil? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS FRANCO , Divaldo Pereira (psicografia). Mediunidade: Desafios e Bênçãos. Manoel Philomeno De Miranda (espírito). Editora LEAL, 2019. KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile. 9ª edição. Editora Boa Nova, 2004.
- 70. Quais são os 5 tipos de obsessão segundo o Espiritismo?
Conforme estabelece a literatura espírita, os tipos de obsessão são variados, manifestando-se de maneiras diversas: de desencarnado para encarnado; de encarnado para desencarnado; de desencarnado para desencarnado; de encarnado para encarnado; auto-obsessão . Veja como Kardec e outros autores descrevem essas modalidades na literatura espírita. DE DESENCARNADO PARA ENCARNADO Entre as modalidades de obsessão, a mais conhecida é aquela em que um Espírito desencarnado, movido pelo desejo de vingança ou pelo simples intento de praticar o mal, influencia e persegue um ser encarnado, buscando impor-lhe a sua vontade. Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns , esclarece que a influência dos Espíritos sobre os homens é constante; porém, em determinadas situações, essa influência adquire caráter de dominação. Os quatro principais graus de obsessão, descritos pelo Codificador e pertencentes à modalidade em análise, são: obsessão simples, fascinação, subjugação e possessão . (vide questão 67 ) DE ENCARNADO PARA DESENCARNADO Nem sempre a obsessão parte do mundo espiritual para o físico. Em muitas ocasiões, é o encarnado quem exerce influência sobre o desencarnado. A respeito dessa modalidade obsessiva, Manoel Philomeno de Miranda, em Mediunidade: Desafios e Bênçãos , esclarece: "São igualmente numerosos os casos em que as mentes atormentadas da Terra, angustiadas pela saudade ou dominadas por outros sentimentos, fixam-se em alguém desencarnado, iniciando-se um processo de perturbação que o angustia, em face das descargas doentias dos pensamentos que lhe são direcionados pelo deambulante na retaguarda física. Sucede que o sentimento — apaixonado, inamistoso ou revoltado — emite ondas desestruturadoras que atingem aquele a quem são direcionadas, dando lugar a transtorno obsessivo desencadeado pelo ser físico contra o espiritual..." Em outras palavras, a obsessão ocorre quando o encarnado mantém pensamentos persistentes, impregnados de emoções desequilibradas — como mágoa, ressentimento ou saudade doentia — dirigidos a um Espírito desencarnado. Não se trata de uma lembrança esporádica ou de um pensamento passageiro, mas de uma fixação emocional contínua e inferior. A repetição e a intensidade desses pensamentos geram uma sintonia específica, estabelecendo vínculos que podem interferir na harmonia, na evolução e no bem-estar do Espírito no plano espiritual. Por sua vez, pensamentos elevados e serenos, nutridos pelo amor e pela compreensão, irradiam vibrações benéficas que amparam e fortalecem o desencarnado, favorecendo-lhe o equilíbrio e o restabelecimento no plano espiritual. DE DESENCARNADO PARA DESENCARNADO O autor espiritual André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, foi um dos responsáveis por divulgar essa modalidade de obsessão, exposta na obra Libertação . Quase sempre, ela se manifesta nas regiões espirituais inferiores — chamadas Umbral —, onde Espíritos dominadores escravizam os recém-desencarnados, ou vítimas específicas, submetendo-os à hipnose mental e a regimes de cativeiro espiritual. Muitos desses subjugados são Espíritos que, ao desencarnar, trouxeram culpas e vícios não superados, sem buscar reparar os males causados a si mesmos e ao próximo durante a vida carnal. Por isso, tornam-se presas fáceis de entidades mais endurecidas. É justamente a consciência culpada que favorece a sintonia com os magnetizadores das trevas. Os obsessores-chefes — Espíritos especializados na perturbação de outras mentes — utilizam os recém-escravizados como instrumentos para perseguir encarnados, ampliar o sofrimento nas regiões umbralinas ou sustentar feudos de poder. Nesses casos, a terapêutica indicada requer a intervenção de equipes espirituais superiores, que atuam por meio de reuniões mediúnicas sérias na Terra e de operações socorristas no plano espiritual, a fim de amparar, esclarecer e encaminhar os recém-libertos ao tratamento adequado. DE ENCARNADO PARA ENCARNADO A obsessão de encarnado para encarnado caracteriza-se quando duas pessoas, ainda na vida física, estabelecem entre si um vínculo mental nocivo, alimentado por sentimentos como antipatia, rancor, ciúme ou paixões doentias. Nesse tipo de influência, cada uma passa a emitir pensamentos perturbadores contra a outra, numa tentativa, consciente ou não, de dominar-lhe os pensamentos e sentimentos. Essa influência não se limita ao estado de vigília. Durante o sono, quando ocorre o fenômeno da emancipação da alma — também chamado desdobramento, isto é, o desprendimento parcial do perispírito em relação ao corpo físico —, os desafetos costumam encontrar-se no plano espiritual para dar continuidade às discussões e disputas, ampliando a animosidade entre ambos. Um caso particular pode ocorrer nas paixões não correspondidas. Em si mesmas, tais situações fazem parte da vida e não representam perigo algum. No entanto, quando o desejo de conquistar alguém ultrapassa o limite natural do afeto e se transforma em uma insistência doentia, a mente da pessoa em questão passa a se fixar nesse objetivo de modo contínuo. Durante o dia, o indivíduo pode se prender a pensamentos persistentes de desejo e apego por alguém. Ao adormecer, ainda ligado a essas ideias, seu perispírito — em desdobramento — dirige-se ao objeto de suas paixões, buscando influenciá-lo de maneira coercitiva. Trata-se, portanto, de um assédio por vias espirituais. Caso venha a desencarnar sem ter superado esses sentimentos em desalinho, o sujeito desperta no mundo espiritual ainda fixado na mesma ideia, utilizando-se agora de outros recursos para perseguir aquele que não lhe acedeu aos caprichos tormentosos. Situações como essas exigem cautela, porque tais paixões e ódios atraem Espíritos desencarnados da mesma natureza moral, que passam a inspirar vinganças, estimular crimes e incitar represálias cruéis, como ocorre frequentemente na sociedade terrestre. Ao analisarmos as obras de Yvonne do Amaral Pereira e de André Luiz — especialmente Libertação — encontramos esclarecimentos profundos sobre a hipnose que se manifesta durante o desdobramento. Ao dormir, o indivíduo encarnado desprende-se do corpo físico e adentra as regiões umbralinas, onde está sujeito a sugestões hipnóticas de natureza inferior. Ao despertar, carrega consigo essas impressões nocivas que, com o tempo e na ausência de discernimento, podem levá-lo à prática de crimes hediondos e outros atos de igual gravidade, à medida que cede às sugestões recebidas durante o sono. AUTO-OBSESSÃO A auto-obsessão é um fenômeno em que o próprio indivíduo se torna algoz de si mesmo. Diferentemente de outras formas de obsessão, na qual ocorre a participação de uma terceira pessoa influenciando negativamente outra, na auto-obsessão não existe um agente externo: é a própria consciência que, envolvida em sentimentos de culpa, remorso ou ideias fixas, gera os tormentos que a fazem sofrer . Movido por sentimentos de culpa, remorso ou ideias fixas, o ser passa a gerar internamente os pensamentos e imagens que o afligem. Sem conseguir ressignificar os erros do passado ou transformá-los em aprendizado, permanece preso a lembranças dolorosas, que se repetem continuamente. Esse padrão mental cria um circuito de autopenalização, enfraquecendo gradualmente suas energias e afetando tanto o equilíbrio espiritual quanto a saúde do corpo físico. Em virtude do seu desajuste íntimo, o auto-obsedado pode atrair para junto de si a presença de Espíritos de igual natureza, ampliando a sua enfermidade psíquica e, por assim dizer, da alma. Apesar da presença desses companheiros afins, o núcleo do problema continua sendo o próprio indivíduo e o sentimento de culpa que o acompanha. O reequilíbrio, segundo a visão espírita, tem na reforma íntima seu ponto de partida. A renovação dos pensamentos, a prática do bem e da caridade, a fé raciocinada e o autoperdão são considerados recursos fundamentais nesse esforço contínuo de aprimoramento moral. No entanto, é preciso reconhecer que, dependendo da gravidade e das particularidades de cada caso, a reforma íntima por si só pode não ser suficiente para atender às necessidades do assistido. Nesses contextos, o acompanhamento psicológico — e, quando indicado, psiquiátrico — deve ser compreendido como parte fundamental do processo de equilíbrio e soerguimento. O suporte espiritual não substitui o cuidado clínico. Ambos podem atuar de forma complementar, conforme a necessidade apresentada. Que fique claro: o tratamento com profissionais da saúde não deve, em hipótese alguma, ser interrompido ou negligenciado em favor exclusivo de práticas espirituais . SIMBIOSE ESPIRITUAL Quando dois Espíritos, encarnados ou desencarnados, se afinizam pelos mesmos prazeres e tendências inferiores, acabam por entrelaçar-se gradualmente. A sintonia mental e emocional que se estabelece entre eles funciona como um encaixe perfeito — semelhante a um plugue ligado a uma tomada — formando uma simbiose em que, com o tempo, já não se distingue quem influencia ou é influenciado. Ambos alimentam e sustentam a perturbação mútua. Nos casos em que são inimigos declarados, e o perdão não se manifesta de parte alguma, o vínculo torna-se ainda mais destrutivo. Cada um passa a nutrir-se do conflito, fixando-se na ideia de prejudicar ou mesmo aniquilar o outro, retroalimentando continuamente a obsessão que os une. Sobre esse fenômeno, o autor Manoel Philomeno de Miranda, no já citado trabalho, observa que, uma vez instalada a parasitose espiritual, o invasor passa a nutrir-se das energias daquele em quem fincou suas raízes mentais, exaurindo-o, a pouco a pouco, culminando, quando o processo se prolonga, numa simbiose em que passa a depender das forças vitais que usurpa. Nesse estágio, com a simbiose já estabelecida, o afastamento entre os envolvidos ocorre de forma lenta e difícil, pois a dependência energética que os une pode, em certos casos, ser vital para ambos. Quando essa separação acontece de maneira abrupta e forçada, o encarnado pode não suportar o impacto inesperado, podendo vir a desencarnar em seguida. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 7: Obsessões Pergunta 70: Quais são os 5 tipos de obsessão segundo o Espiritismo? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile. 9ª edição. Editora Boa Nova, 2004. FRANCO , Divaldo Pereira (psicografia). Mediunidade: Desafios e Bênçãos. Manoel Philomeno De Miranda (espírito). Editora LEAL, 2019. XAVIER , Francisco Cândido. Libertação. André Luiz (espírito). FEB Editora, 2019.
- 45. A vestimenta dos médiuns e o uso de toalhas brancas impacta a prática mediúnica nas reuniões espíritas?
Apesar do Espiritismo não ter em sua base o uso de ritualísticas de nenhuma ordem, tornou-se costume – principalmente no Brasil – o uso de toalhas de mesa na cor branca revestindo o móvel que serve de apoio aos médiuns no decorrer das reuniões mediúnicas. A vestimenta dos médiuns e o uso de toalhas brancas impacta a prática mediúnica nas reuniões espíritas? Essa prática se tornou tão marcante que ainda hoje é possível ouvirmos alguém se utilizando da expressão espiritismo de mesa branca para diferenciar a doutrina espírita de outras linhagens espiritualistas, ou dando a entender – erroneamente – que existem dois tipos de Espiritismo, o bom/elevado e o ruim/inferior. ( vide questão 44 ) A FUNÇÃO DA MESA E DAS TOALHAS BRANCAS De início precisamos compreender que a mesa utilizada nas salas de reuniões mediúnicas é mero acessório que proporciona um conforto maior aos que se encontram em sua volta, na qual podem apoiar seus braços, escrever, colocar uma jarra de água ou uma obra espírita, a exemplo de O Evangelho Segundo o Espiritismo , etc. Geralmente as salas que são utilizadas para os encontros que visam a prática e o estudo da mediunidade, tal como o GEM (Grupo de Estudo Mediúnico), não possuem mesas, visto que a quantidade de pessoas presentes não comportaria em torno desse móvel. Por conseguinte, teremos uma sala com várias cadeiras, sem nenhuma mesa e, ainda assim, o exercício da mediunidade ocorre sem nenhum empecilho. Em alguns centros também será possível observar o uso de pranchetas auxiliando o exercício da psicografia, na qual o médium se utiliza deste acessório (prancheta) para lhe dar apoio na hora da escrita. A mesa não tem, portanto, nenhuma função espiritual, muito menos a cor da toalha que a reveste. DADOS IMPORTANTES Isto posto e entendido, passamos adiante. De acordo com o último censo do IBGE (2022), o número de pessoas que se declaram Espíritas no Brasil caiu de 3,8 milhões (2,2% da população em 2010) para cerca de 3,7 milhões (1,8% da população em 2022). Apesar desse significativo declínio, o Espiritismo mantém-se como a terceira religião em número de adeptos no país, ficando atrás apenas do catolicismo (56,7%) e do protestantismo (26,9%). Embora não tenhamos um número exato, diversos estudos apontam que muitos dos adeptos do espiritismo no Brasil são oriundos do catolicismo, fato este que ocorre desde a segunda metade do século XIX, com a chegada das obras espíritas em solo brasileiro. Dessa maneira, podemos compreender que, muito provavelmente, estes novos prosélitos (ex-católicos) da doutrina espírita trouxeram arraigados em seu íntimo os costumes de sua antiga crença, dentre eles, a famosa toalha branca que comumente ornamenta o altar nas missas católicas (sendo agora usada para cobrir as mesas nos centros espíritas e nas reuniões mediúnicas). No contexto atual, pelo que nos foi dado a observar, as cores da toalha utilizada em diversos centros espíritas são de variadas tonalidades, incluindo a branca, mas também cores neutras ou estampadas, e em tantos outros, não há o uso sequer de toalhas (sendo apenas a mesa de madeira ou qualquer outro material), assim como, o uso de lonas mais escuras (o que facilita a sua limpeza). COR DA ROUPA Outro ponto refere-se à roupa do médium espírita. Assim como a cor da toalha, da mesa ou da lona, a cor da roupa do médium em nada interfere no seu mediunismo, seja ela branca, preta, rosa, azul, dentre outras. A única ressalva nesse caso encontra-se para os tipos de roupas que possam vir a atrapalhar ou influenciar negativamente os médiuns de um modo geral. Atentando para o bom senso e discernimento, todos os membros do agrupamento mediúnico devem buscar evitar alguns comportamentos e extravagâncias. A título de exemplo, podemos citar: Uso de perfumes fortes: devido ao tamanho geralmente reduzido das salas onde as reuniões mediúnicas ocorrem, o uso de perfumes ou outras fragrâncias muito fortes podem atrapalhar o andamento dos trabalhos em curso, visto que algumas pessoas tendem a ficar enjoadas, sem concentração, com dores de cabeça ou espirrando diante de certos estímulos olfativos. Roupas cavadas, minúsculas ou com transparências: é importante destacar, logo de início, que cada pessoa é livre para usar a roupa que bem entender e isso não é motivo para escândalos ou assédio por parte de ninguém, principalmente dentro de uma instituição espírita. Aqui nos referimos a um momento de trabalho santificado na seara de Jesus e isso exige de nós algumas diretrizes básicas que ajudam a manter ou cultivar a harmonia do grupo mediúnico, além de preservar a própria intimidade do médium. Em alguns casos o medianeiro pode sofrer o baque ao receber um Espírito desequilibrado. Quando o médium (que é sempre o responsável por toda comunicação que ocorre por seu intermédio) não detém o controle do seu mediunismo, julgando o Espírito muito forte para ele controlar , pode ocorrer que ele venha a se desequilibrar e cair. Utilizando determinadas roupas, como saia ou um vestido curto, nessa queda, pode ser que a sua roupa íntima fique a mostra, à visão de todos os presentes. O QUE DIZ KARDEC? Ao longo das obras de Allan Kardec não iremos encontrar nenhuma menção sobre o tipo ou a cor da roupa que o médium espírita deve usar durante as reuniões mediúnicas. A mesma sentença também é válida para a mesa e a toalha que a reveste. Se este tópico fosse realmente fundamental ou fizesse alguma diferença na prática espírita ou mediúnica, não tenhamos dúvidas que o próprio codificador teria pincelado, mesmo que superficialmente, algo a este respeito. Em suma, o mais importante para o médium espírita é se vestir de forma discreta, simples, decente, confortável e respeitosa. Isso ajuda a manter um ambiente de seriedade, harmonia e concentração, sem distrações visuais ou olfativas que possam interferir no trabalho espiritual em andamento. Nas casas propriamente espíritas, não há nenhuma obrigatoriedade em usar trajes específicos ou de uma determinada cor. Atenção! Não devemos confundir a casa espírita com as casas mistas – aquelas que se declaram como espíritas , mas que mesclam o espiritismo com outros segmentos espiritualistas, confundindo os seus adeptos e frequentadores menos instruídos –, tampouco com outras vertentes espiritualistas, como a umbanda, candomblé, etc. Para os espíritas, a cor da roupa é indiferente, o que realmente importa é a cor do coração , é a intenção do médium e a sua disposição para o trabalho mediúnico. Vale ressaltar que algumas casas espíritas podem ter regras ou costumes específicos sobre a vestimenta dos seus trabalhadores (como a oposição quanto ao uso de bermudas, shorts, camisetas, regatas, bonés, etc.). Ao medianeiro da doutrina dos Espíritos, é sempre de bom alvitre consultar o centro que se pretenda vincular para saber se há alguma orientação a este respeito; tais instruções devem ser sempre analisadas através da lógica e da razão, evitando misticismos e excentricidades. Nossas ponderações acima descritas são direcionadas, de modo particular, aos médiuns espíritas, ficando os demais segmentos religiosos livres para seguirem as diretrizes que melhor lhes convém. Não se trata aqui de certo ou errado, mas sim, de que cada vertente siga as orientações que melhor lhes aprouver, cabendo sempre o respeito a todos os trabalhadores do bem. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 4: O Médium e a Casa Espírita Pergunta 45: A vestimenta dos médiuns e o uso de toalhas brancas impacta a prática mediúnica nas reuniões espíritas? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2022: características gerais da população. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
- 69. Qual a relação entre transtornos psicológicos e obsessão espiritual?
A ansiedade, a depressão, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o narcisismo patológico figuram entre os transtornos psicológicos mais conhecidos. Em muitos casos, essas perturbações psíquicas causam profundo sofrimento e comprometem o dia a dia de quem as enfrenta, afetando a sua forma de pensar, sentir e relacionar-se com o próximo. A fascinação leva o indivíduo a assumir posturas caricatas e comportamentos ridículos. Do ponto de vista espírita, é justo afirmar que todas as desordens psicológicas, quaisquer que sejam, podem favorecer a implantação de um quadro obsessivo, visto que todo desequilíbrio íntimo é força atrativa para mentes de igual natureza. ( vide questão 56 ) Por possuírem causas diversas, é difícil descrever — com exatidão — onde termina a ação biológica, psicológica ou social e onde começa a influência espiritual, pois uma pode suceder à outra. Em alguns casos, o transtorno psicológico tem origem orgânica, agravando-se com a aproximação de Espíritos que se alimentam de emoções inferiores, encontrando terreno fértil para suas influências. Em outros, o processo é inverso: a gênese está no fator espiritual, quando um Espírito vingativo, aproximando-se de sua vítima, passa a sugerir-lhe ideias perturbadoras e a enfraquecer-lhe os recursos de defesa, conduzindo-a gradualmente a estados depressivos e obsessivos cada vez mais graves. A CAUSA É ORGÂNICA OU ESPIRITUAL? De forma mais clara, as desordens de cunho emocional podem ter como ponto de partida dois aspectos fundamentais e complementares: o orgânico e o espiritual. Grande parte das perturbações psíquicas conhecidas tem origem no aspecto físico — sem participação espiritual direta — podendo decorrer de fatores biológicos (alterações em neurotransmissores), psicológicos (experiências traumáticas, padrões de pensamento disfuncionais, dificuldades emocionais, características de personalidade) ou sociais (violência, exclusão, pressões econômicas, relações familiares conflituosas e ambientes estressantes). Frequentemente, esses fatores se entrelaçam, combinando química cerebral, experiências de vida e condicionamentos psicológicos. Entretanto, pela lei de afinidade e sintonia, o indivíduo em desalinho íntimo passa a atrair para junto de si Espíritos de baixo grau evolutivo. Estes, por sua vez, alimentam-se do padrão mental que encontram e buscam reforçá-lo, influenciando-o repetidamente para que permaneça no estado que lhes é conveniente, garantindo-lhes os recursos energéticos de que necessitam. Nesse caso, o ponto de partida foi físico, sobre o qual se sobrepôs um agravante espiritual. É importante ressaltar que, nesse modelo, os Espíritos que se aproximam nem sempre possuem vínculo anterior com a vítima; muitas vezes, foram apenas atraídos pela sintonia com o seu padrão mental. O oposto também ocorre: um indivíduo que se encontra relativamente equilibrado em seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais pode tornar-se alvo de um Espírito vingativo, com quem mantém laços pretéritos. Esse obsessor passa, então, a atuar de forma sutil e contínua, impregnando a mente de sua vítima com ideias perturbadoras sempre que encontra brechas para tal. À medida que o encarnado cede a essas sugestões, abre espaço para processos obsessivos mais graves, como a fascinação e a subjugação ( vide questão 67 ). Perceba que, nesse último caso, a origem é espiritual, e os efeitos — psicológicos e até físicos — surgem como consequência da obsessão instalada. Em suma, os transtornos psicológicos podem ter origem física (orgânica) e serem agravados por influências espirituais (como a aproximação de Espíritos vampirizadores) ou, de maneira inversa, podem ter origem espiritual (obsessão) e, a partir dela, conduzir ao adoecimento psicológico e físico. Em muitos casos, trata-se de uma interação entre esses dois fatores, tornando difícil delimitar onde termina a causa orgânica e começa a influência espiritual, ou vice-versa. NARCISISMO x FASCINAÇÃO Entre os diversos distúrbios psíquicos existentes, o narcisismo é um dos mais perigosos para os médiuns. O médium narcisista geralmente apresenta um padrão de comportamento marcado por autoestima inflada, necessidade constante de admiração e dificuldade em reconhecer falhas. Comumente, o narcisista fascinado adota uma fachada de falsa humildade, ao mesmo tempo em que se julga o mais inteligente, o mais apto e o único detentor da verdade. Segundo Manoel Philomeno de Miranda, em Mediunidade: Desafios e Bênçãos , pela psicografia de Divaldo Franco, o narcisismo pode estar relacionado a conflitos e frustrações pessoais, induzindo o indivíduo a um estado psicológico semelhante ao da infância, no qual busca fugir da realidade por meio de uma postura de superioridade. Sob esse engano, o médium passa a acreditar que todas as comunicações que recebe são de Espíritos elevados e que, por sua suposta elevação espiritual , foi escolhido para uma missão única, impossível de ser confiada a qualquer outro. MÉDIUM NARCISISTA Esquecendo-se da humildade e dos valiosos ensinamentos de Jesus e de Allan Kardec, o narcisista abre as portas para a fascinação e acaba preso a companhias perturbadoras, das quais dificilmente se libertará sem duras consequências. Como resultado desse conúbio, veremos o médium ser conduzido por seus pseudoguias ao isolamento, à perda da afetividade, à depressão e, por fim, ao suicídio. A fascinação é muito mais comum do que se imagina, e ninguém pode dizer-se totalmente imune a esse perigo. Por isso, o médium deve manter vigilância constante sobre seus pensamentos e desejos, cultivar a humildade verdadeira, aprofundar-se no estudo da Codificação Espírita e, sempre que necessário, buscar apoio psicológico especializado, preservando assim o equilíbrio e a harmonia de sua vida mental e espiritual. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 7: Obsessões Pergunta 69: Qual a relação entre transtornos psicológicos e obsessão espiritual? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS FRANCO , Divaldo Pereira (psicografia). Mediunidade: Desafios e Bênçãos. Manoel Philomeno De Miranda (espírito). Editora LEAL, 2019. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION . Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE . Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 11. ed. Genebra: OMS, 2019. ENGEL , George L. The clinical application of the biopsychosocial model. American Journal of Psychiatry, v. 137, n. 5, p. 535–544, 1980. NATIONAL INSTITUTE OF MENTAL HEALTH . Mental Health Information. Bethesda: NIMH, 2023. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION . Practice Guidelines for the Psychiatric Evaluation of Adults. 3. ed. Washington: APA, 2016.
- 67. Obsessão, fascinação, subjugação e possessão: como Kardec as distingue?
A obsessão, conforme expõe Allan Kardec em O Livro dos Médiuns , constitui um dos mais sérios entraves à prática mediúnica, impondo desafios consideráveis, sobretudo aos médiuns que se encontram nos primeiros estágios de desenvolvimento, os quais, por vezes, ainda não dispõem da experiência necessária para reconhecer e enfrentar adequadamente esse obstáculo. Como diferenciar obsessão, subjugação, fascinação e possessão? De acordo com Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo , a obsessão é a influência persistente de um espírito malévolo sobre um indivíduo. Suas manifestações variam amplamente, desde uma simples influência moral, sem sinais exteriores perceptíveis, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Por apresentar características distintas, a obsessão deve ser analisada com atenção, considerando o grau de domínio que exerce e os efeitos que provoca. Sob essa perspectiva, o termo obsessão pode ser entendido como uma designação genérica para esse tipo de fenômeno, que se classifica, essencialmente, em três categorias: obsessão simples, fascinação e subjugação . OBSESSÃO, SUBJUGAÇÃO E FASCINAÇÃO Com base em O Livro dos Médiuns e na Revista Espírita – outubro de 1858 , vejamos como o codificador distingue e apresenta cada um desses fenômenos. OBSESSÃO SIMPLES: A obsessão é a ação quase permanente de um espírito estranho, que leva a pessoa a sentir uma necessidade incessante de agir de determinada maneira e de realizar certas ações. A obsessão simples ocorre quando um espírito malfazejo (perturbador) se impõe a um médium, intrometendo-se, contra a sua vontade, nas comunicações que ele recebe. Esse espírito impede a comunicação com outros e se apresenta no lugar daqueles que são evocados. A obsessão, portanto, consiste na persistência de um espírito do qual a pessoa não consegue se livrar. Na obsessão simples, o médium tem plena consciência de que está sob a influência de um espírito mentiroso (enganador), que não se disfarça nem tenta ocultar suas más intenções. O médium reconhece facilmente a felonia (malícia, maldade) e, por estar vigilante, raramente é enganado. Esse tipo de obsessão é, portanto, apenas desagradável, sem outros inconvenientes, além de obstruir as comunicações que o médium desejaria receber de Espíritos sérios ou afetuosos. FASCINAÇÃO: A fascinação é uma forma de ilusão provocada pela ação direta de um espírito estranho ou por seus raciocínios ardilosos, que buscam confundir para induzir ao erro. Essa ilusão deturpa a percepção das questões morais, distorce o julgamento e leva a tomar o mal pelo bem. Diferentemente da obsessão simples, na qual o médium reconhece a presença de um espírito enganador, na fascinação, a influência espiritual se disfarça com astúcia. Trata-se de uma ilusão gerada pela ação direta do espírito sobre o pensamento do médium, a ponto de, em certo grau, paralisar-lhe o raciocínio diante das comunicações. O médium fascinado não percebe que está sendo enganado: o Espírito, com astúcia, consegue inspirar-lhe uma confiança cega, dificultando-lhe perceber a mentira e a armadilha em que está envolvido, além de impedir que ele note o absurdo de suas palavras, mesmo quando esse absurdo é claro para todos ao seu redor. Devido à ilusão que dela decorre, o espírito conduz aquele a quem se apossou como faria com um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais estranhas, as teorias mais falsas como se fossem a única expressão da verdade. Além disso, pode induzi-lo a situações ridículas, comprometedoras e até perigosas. SUBJUGAÇÃO: A subjugação é caracterizada por um domínio ainda mais profundo do que na obsessão e na fascinação. Enquanto a obsessão envolve uma influência persistente e a fascinação, uma ilusão que distorce o julgamento, a subjugação é um controle mais absoluto, no qual o Espírito anula a autonomia da pessoa, forçando-a a agir de maneira contrária à sua própria vontade. Trata-se de uma ligação moral que paralisa a vontade do indivíduo, conduzindo-o a atitudes irracionais, frequentemente contrárias aos seus próprios interesses. Em outras palavras, o sujeito encontra-se sob um verdadeiro jugo. A subjugação pode se manifestar de duas maneiras: moral ou corporal. Na subjugação moral, o sujeito é levado a realizar escolhas frequentemente irracionais, mas que ele acredita serem sensatas, devido à distorção causada pela influência espiritual. Esse fenômeno, semelhante à fascinação, impede o discernimento do médium. Já na subjugação corporal, o espírito age diretamente sobre os órgãos físicos, provocando movimentos involuntários. Em casos mais graves, esses movimentos resultam em atitudes ridículas, e, embora o sujeito tenha plena consciência do absurdo de suas ações, não consegue resistir à força que o domina. POSSESSÃO Entre os processos obsessivos, incluem-se também a possessão e o fenômeno de poltergeist¹ . Kardec acreditou por muito tempo que a possessão real não existia, considerando tais episódios como manifestações de subjugação. No entanto, após um longo período de observações, o pensador lionês revisou sua posição, corrigindo seus escritos e reconhecendo a veracidade da possessão, classificando-a como um grau ainda mais intenso do que a fascinação e a subjugação . Essa retificação está registrada na Revista Espírita — dezembro de 1863 , no relato do caso da Senhorita Júlia. Vejamos o que expôs o codificador: “Temos dito que não havia possessos (ver LE-473, por exemplo) no sentido vulgar do vocábulo mas somente subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão , isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito errante a um encarnado.” Em A Gênese , capítulo XIV, o filho de Lyon retoma o tema da possessão², diferenciando-a da obsessão. Sobre isso, ele explica: “ Na possessão, em vez de agir exteriormente, o Espírito atuante se substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe o corpo para domicílio, sem que este, no entanto, seja abandonado pelo seu dono, pois que isso só se pode dar pela morte. A possessão, conseguintemente, é sempre temporária e intermitente, porque um Espírito desencarnado não pode tomar definitivamente o lugar de um encarnado, pela razão de que a união molecular do perispírito e do corpo só se pode operar no momento da concepção." Dando continuidade, conclui o mestre lionês: " De posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se seu próprio fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o último que fala e age; quem o tenha conhecido em vida, reconhece-lhe a linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia.” RECONHECENDO A OBSESSÃO No item 242 de O Livro dos Médiuns , Kardec afirma que a obsessão, independentemente do grau, é sempre exercida por um mau Espírito, nunca por um Espírito benfeitor. Complementando seu raciocínio, o autor enfatiza que toda comunicação transmitida por um médium obsidiado é de origem suspeita e não merece confiança . De acordo com o codificador, no livro acima citado, podemos reconhecer a obsessão pelas seguintes características³: Persistência de um Espírito em se comunicar, bom ou mau grado, pela escrita, pela audição, pela tiptologia, etc., opondo-se a que outros Espíritos o façam. Ilusão que, não obstante a inteligência do médium, o impede de reconhecer a falsidade e o ridículo das comunicações que recebe. Crença na infalibilidade e na identidade absoluta dos Espíritos que se comunicam e que, sob nomes respeitáveis e venerados, dizem coisas falsas ou absurdas. Confiança do médium nos elogios que lhe dispensam os Espíritos que por ele se comunicam; Disposição para se afastar das pessoas que podem emitir opiniões aproveitáveis. Tomar a mal a crítica das comunicações que recebe. Necessidade incessante e inoportuna de escrever. Constrangimento físico qualquer, dominando-lhe a vontade e forçando-o a agir ou falar a seu mau grado. Rumores e desordens persistentes ao redor do médium, sendo ele de tudo a causa, ou o objeto. O QUE FAZER EM CASOS DE OBSESSÃO? Allan Kardec enfatiza que são as nossas imperfeições morais que nos tornam mais suscetíveis às influências de Espíritos inferiores. Para nos libertarmos dessa condição, é essencial que busquemos o fortalecimento espiritual, o que só pode ser alcançado por meio da reforma íntima e da nossa transformação moral. Kardec também explica que, na maioria das vezes, a obsessão nasce de um desejo de vingança. Quando um Espírito se sente prejudicado por outro — seja nesta ou em vidas anteriores — ele tenta fazer justiça por conta própria, o que pode gerar obsessões mais intensas e de difícil desvinculação. No entanto, nem todas as obsessões têm esse impulso vingativo; algumas surgem apenas do prazer em causar o mal, sem qualquer ligação pretérita ou razão moral evidente. Quando o obsidiado não consegue, por si só, afastar a entidade obsessora, torna-se necessária a intervenção de terceiros. Nesse contexto, os médiuns espíritas que atuam em reuniões de desobsessão desempenham um papel fundamental. Com conhecimento e preparo, esses trabalhadores abnegados auxiliam no restabelecimento do equilíbrio do indivíduo, buscando desfazer os laços de influência estabelecidos pela entidade perturbadora. Além das reuniões de desobsessão, o passe espírita se destaca como um recurso essencial no tratamento da obsessão. Envolvido por fluidos negativos que comprometem seu estado mental e físico, o obsidiado necessita dissipar essas energias prejudiciais. O passe atua como um mecanismo de reequilíbrio energético, promovendo a substituição dessas vibrações nocivas por fluidos revigorantes, favorecendo, assim, sua recuperação e fortalecimento espiritual. Contudo, a simples dispersão das energias deletérias não é suficiente para garantir a libertação definitiva do processo obsessivo. Para que essa condição seja superada em sua totalidade, é imprescindível que o Espírito perseguidor seja esclarecido e renuncie às motivações que o levam a influenciar negativamente seu alvo. Esse esclarecimento envolve a compreensão do valor do perdão, do amor ao próximo e da necessidade de transformação moral, permitindo que ele abandone antigos padrões de pensamento e conduta para trilhar um caminho de renovação espiritual. No caso da fascinação, contudo, a libertação torna-se mais complexa. O obsidiado, seduzido e iludido pela influência persistente do perseguidor, não percebe sua condição de subjugação. Por acreditar estar no controle de seus próprios pensamentos e decisões, ele tende a rejeitar qualquer tentativa de auxílio externo. Além disso, raramente recorre à prece como meio de proteção e fortalecimento, o que favorece a manutenção do vínculo obsessivo e dificulta a possibilidade de uma intervenção eficaz. ¹ O fenômeno de poltergeist será tratado de forma individualizada em um capítulo subsequente desta obra. ² Para um maior aprofundamento sobre o tema da possessão, recomendamos a leitura do livro Condomínio Espiritual , de Hermínio Corrêa de Miranda, além dos artigos As Três Faces de Eva (publicado na Reformador – Dezembro de 1959) e Sybil – O Drama da Possessão (publicado na Reformador – Março de 1974), ambos do mesmo autor. Texto extraído do livro Mediunidade com Kardec de Patrick Lima . Capítulo 7: Obsessões Pergunta 67: Obsessão, fascinação, subjugação e possessão: como Kardec as distingue? Como citar: LIMA, Patrick. Mediunidade com Kardec. Poverello Edições, 2023. 1ª ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS KARDEC , Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile. 9ª edição. Editora Boa Nova, 2004. KARDEC , Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. 21ª edição. Editora Boa Nova, 2017 KARDEC , Allan. Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – outubro de 1858. Tradução de Julio Abreu Filho. Edicel; 2ª edição, julho 2002. KARDEC , Allan. Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – agosto de 1863. Tradução de Julio Abreu Filho. Edicel, 1ª edição, julho de 2002. KARDEC , Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. FEB Editora, 2013.










